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Goiânia: de capital do sertão à interior cosmopolita

Goiânia: de capital do sertão à interior cosmopolita
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A história da construção das cidades como centros políticos, guardiãs das memórias e utopias das sociedades, é antiga entre nós. A imaginação grega de uma República organizadora dos caminhos históricos de um povo remonta à antiguidade clássica, dando, de certa forma, um segmento ao que os egípcios, por volta de 1350 a.C., planejaram com a cidade de Akhetaton. A “polis” grega refletia a preocupação com o homem e seu ideal de democracia antiga.

Já na Alta Idade Média A Cidade de Deus de Santo Agostinho determinava os desígnios e as soluções celestiais para os problemas materiais. Na transparência refinada do Renascimento, o anseio de uma cidade ideal, que orientasse os caminhos das sociedades ganha plenitude com A Utopia de Thomas More e com A Cidade do Sol de Campanella, seguidas por Francis Bacon com sua Nova Atlântida.

Desta forma uma das fontes do urbanismo moderno viria na trilha da crítica que os socialistas utópicos e “científicos” fizeram às cidades que emergiram com a Revolução Industrial, uma crítica ao ideal burguês de mundo.

Desde a Grécia então a cidade foi entendida como abrigo da utopia de uma sociedade.

Nesse emaranhado de ideias e ideais de construir utopias e edificar cidades que projetassem a vida e a visão de mundo dos homens, podemos ter uma breve noção desse imenso painel, que demonstra como o processo histórico possibilitou a construção de capitais em vários centros do mundo, inclusive em vários Estados brasileiros. Assim, Goiânia vai surgir como uma decorrência desse todo talhado a tempo e a história, a memória e a utopia, de um povo, de um lugar.

Sobre a construção de Goiânia muito já se falou, mas ainda não é muito o que se falou. Filha dos anos trinta, gestada em lenta gravidez de ideias nos séculos XVIII e XIX, a idéia de mudança da capital do Estado de Goiás foi retomada por Pedro Ludovico no início da década de 30, como filha adotada, que se tornou dileta, espelho dos olhos, esperança e progresso, estratégia e sobrevivência política.

Trinta no Brasil foi uma tentativa de reorientar o cometa desordenado da economia brasileira, de colocar um pouco a lucidez na loucura curável do capitalismo brasileiro. Não deve ser entendido como processo homogêneo para o país, uma vez que Goiás não contava com a composição de forças políticas que originaram os estudos mais fecundos sobre a época. Estas forças, presentes no Centro Sul do país, praticamente inexistiam em Goiás, nos moldes em que ficaram conhecidas por boa parte da historiografia do período, ou seja, burguesia e proletariado. Goiás passava pela estruturação de um Estado cuja composição político-social oscilava entre os grupos políticos que centralizavam as decisões nas cidades de Goiás, Porto Nacional e Morrinhos, ligadas aos moldes e práticas políticas da Primeira República, e outros grupos situados no Sul e Sudoeste do Estado, cujo potencial econômico não encontrava o devido respaldo político e cuja mentalidade era, para a época, mais modernizante, embora ligada com o afinco de uma raiz à estrutura fundiária.

A ideia de mudança da capital era uma bandeira empunhada como argumento, defendida como necessidade, posta como anseio de um povo, requisitada como fundamento e representatividade de um Estado carente de uma capital à altura de seu pretendido salto político-econômico. A mudança da capital ocultava a face mais real de seu intento. Não era apenas o deslocamento do centro de poder dos Caiados. O era também. Não era apenas a vontade atávica de uma ideia de um povo ou de um político que buscava concretização. Era bem mais que isso. Feita em nome do progresso, da esperança e do pretenso “novo” que se contrapunha ao suposto “velho”, Goiânia representava o veículo de condução político burocrática capaz de levar o estado a uma maior inserção no mercado nacional, a uma dinamização do processo de acumulação capitalista nas fronteiras mais desenvolvidas economicamente no Estado. Antes de ser uma capital para Goiás, Goiânia era uma capital para o Sul e Sudoeste do Estado, uma vez que estes grupos haviam encontrado a abertura de participação política necessária aos seus intentos no Movimento de Trinta, via Aliança Liberal, e concretização de tais anseios no Partido Social Republicano (PSR), liderado por Pedro Ludovico nas eleições de 33/34. Pedro Ludovico, um médico em busca de ascensão política, um liberal, um humanista, um lídimo representante dos anseios políticos e econômicos dos grupos ligados ao Sul e Sudoeste do Estado.

A construção de Goiânia efetivava-se no burburinho político das vozes contrárias à mudança da capital. A oposição, em especial a da cidade de Goiás, alegava problemas de toda ordem para a não efetivação de ato tão protelado ao longo da história goiana. A falta de verbas, a carência econômica de um Estado face aos gastos tão múltiplos que se iria fazer, a aplicação dos mesmos na solução de problemas crônicos de vários municípios nas áreas de saúde, educação e energia. Os ouvidos mudancistas se dispunham a emitir silêncios. Não se tratava de remodelar o “velho” e sim providenciar o “novo”. Não se tratava de prever os gastos e sim calcular os investimentos.

A verba viria dos lotes vendidos na área da construção de Goiânia, pingaria como chuva de verão dos cofres do Governo Federal por meio de apólices e empréstimos. Obviamente não cairiam do céu numa época de tempestades internacionais geradas pela “Crise de 29”, seguida pela grande depressão mundial que atinge o Brasil com maior intensidade ao longo dos anos 30.

A mão-de-obra básica teve que ser chamada do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Bahia, para formar um contingente operário que não havia se formado no Estado ao longo de seu processo histórico. Os quase 4.000 anônimos, a outra face dos construtores de Goiânia, viviam em condições sub-humanas de vida e os salários, quando pagos, viravam vales, que viravam dívidas nas mãos dos agiotas que acabavam por virarem lucros nas cantinas dos exploradores.

Uma parcela da sociedade da época, a que tinha expressão na política local, escondia o fazendeiro por trás do profissional liberal. Era o médico, o advogado, o farmacêutico, o engenheiro, o bacharel, etc., quase todos ligados à estrutura fundiária, que demonstravam por si mesmos ou através de seus representantes uma mudança nos quadros da política estatal. Se fazia crer que o velho, os grupos políticos depostos, tinha cedido lugar a uma nova ordem, de novos homens, entre jalecos e leis, remédios e construções, que, assim, dariam ao Estado uma nova mentalidade: mais progressista, mais moderna, mais dinâmica. Era um reflexo dos anos trinta. Uma mentalidade urbana com os pés plantados em solo rural. Tal mesclagem (urbano-rural), pode, até os dias atuais, ser notada nas várias facetas da cidade que se tornou Goiânia, a Capital.

Destaca-se nos anos trinta o crescente interesse do Governo Federal na ocupação capitalista da Amazônia, dentro da chamada “Marcha para o Oeste”, da qual Goiânia seria o símbolo do Brasil “grande”, do “novo”, do “progresso”, que levaria o Estado de Goiás a sair do marasmo político-econômico, além de representar o “novo tempo” que se estruturava nos horizontes nacionais.

As capitais se erguem para o capital. São racionalidades administrativas e burocráticas do Estado que se impõem na lógica do capitalismo. São espaços que permitem organizar o jogo político, são palcos do aplauso dos oportunistas de plantão, mas são também perspectivas que se abrem rumo à modernidade. Arquitetonicamente falando Goiânia foi o símbolo do moderno e do urbano em solo rural. Um teatro de “art nouveau” cravado no meio do planalto central. Um ruidoso berrante do Pantanal tocando no Olympia de Paris. Os homens do sertão demorariam a entender os estranhos “currais” de concreto.

A ideologia do progresso, dinamizada pelo nacionalismo desenvolvido pelo país afora, que, por sua vez, sofreu influências internacionais, chegava com força total para consolidar uma época em que o Brasil caminhava a passos largos rumo à centralização do poder. Goiânia, no contexto, era um espelho representativo da política de Vargas e de seus seguidores.

Goiânia pode assim ser encarada como a imaginação utópica da época. Perspectiva de uma nova vida, de um novo tempo, ideologicamente disseminado pela “Revolução” de 30. Esperança de dias melhores, de ruptura com o passado, de sonho a ser conquistado, enfim, de concretização de um projeto humano resultante de relações humanas. Assim, a ideia de progresso serviu fartamente aos ideais de consolidação política de Pedro Ludovico, através de sua proposta de mudança da capital. Mudando a capital, Pedro Ludovico não só estaria coroando seu ideal político em prol do progresso das regiões Sul e Sudoeste, como estaria também criando um novo centro de poder. A mudança da capital significava também ganhos políticos, uma vez que mudando a capital o governo estaria criando o necessário espaço urbano à nova etapa de acumulação capitalista no Estado além do espaço necessário à sua afirmação no poder.

Em suma, Goiânia pode ser considerada um fruto do Estado Novo, uma vez que sua realização dependeu basicamente do regime instalado em 30 e que culminou na ordem imposta por Vargas em 37. Para o regime que se instalava o inverso era também verdadeiro: Goiânia era a representação maior do “nacionalismo”, do “bandeirantismo”, da “sagacidade” do brasileiro, termos cantados e decantados pelos ideólogos do Estado Novo.

Torna-se claro que Pedro Ludovico e o Estado Novo tinham um forte ponto de convergência: Goiânia. Pelo lado de Pedro Ludovico, o regime servia como suporte de sua mais alta realização política − sua e dos grupos políticos do Sul e Sudoeste −, pelo lado do Estado Novo, Goiânia servia como concretização dos ideais do momento, como símbolo que encarnava, na prática, o nacionalismo apregoado pelo regime. Eles se serviam, se complementavam. No tocante à mudança da capital, podemos afirmar que o Estado Novo foi o catalizador final da transferência da capital, bem como o início de uma dependência política cada vez maior junto ao Governo Federal.

Chegava-se a uma época de definições em relação a Goiânia. Sua inauguração oficial só se daria cinco anos mais tarde, em julho de 1942. A história dessa cidade sexagenária, capital plantada dentro do interior, campo − cidade, Campinas e Goiânias, vem a ser um exemplo daquilo que Marco Polo ensinou a Kublai Kan nas Cidades Invisíveis de Ítalo Calvino: “de uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas”.

Por fim, veio a nova capital, a capital do sertão. Goiânia matrona, bela dona, sessentona, capricho do sertão, fundição de concreto e sonho, filha dileta dos anos trinta, amante de Pedro, de pedra, fundamental para todos nós. Couto Magalhães pensou noutro local, noutra capital, mas não pensou Goiânia, Rodolfo Gustavo da Paixão, queria mudar de Goiás a capital, mas não imaginou Goiânia. Pedro pensou Goiânia, articulou Goiânia, respirou esse ar de umidade baixa, semeou sonhos na solidão do cerrado. Pedro somou forças com cerca de quatro mil obreiros anônimos, com dois arquitetos geniais que moldaram modernas construções no meio do quase nada, com a engenharia discreta dos Coimbra Bueno.

Capital das necessidades de desenvolvimento interno, trampolim para Brasília, glória do Sul e Sudoeste do Estado, marcha obrigatória da “marcha para Oeste”, Goiânia não respondeu aos gritos alarmados dos antimudancistas em 1933/34. Pedro usava seu saber médico para tratar Goiás, a velha capital, não tratar para curar, mas para sepultar, filho que nega a própria terra em nome do novo tempo. A Velha Capital, representação de nosso espelho imemorial de ouros coloniais, não resistiu aos apelos da ciência médica. Colocada na UTI do capitalismo de seu tempo estava condenada a perder seu posto de primeira dama de nosso passado administrativo. Goiânia não projetava gastos e sim calculava investimentos. Filha capitalista do sertão, modernidade no planalto central das ambições de desenvolvimento do Estado, era pouco ambiciosa em seu crescimento. Projetada para pouco mais de 50.000 habitantes não pensou em ter milhões de pessoas em sua volta, multiplicando casas, vilas, prédios e pressões urbanas. Com 83 anos já é avó de seus problemas, sem controle de seus meninos de rua, sem dar palmatória desejada nas mãos de sua violência aterradora, sem resolver suas crises de menopausa de toda ordem. Apenas senhora de suas lições pelos caminhos de Goiás.

Hoje vislumbra um absurdo desprezo por sua Art Deco, pouco se efetiva na defesa e conservação de seu Patrimônio Histórico e Artístico, áreas tão presentes e ainda fáceis de serem preservadas. Mas temos o que celebrar. Temos um belo projeto efetivado de uma bela Vila Cultural Cora Coralina que ajuda na reedificação do centro da Capital, projetos da área cultural como o chorinho no Grande Hotel e música no Goiânia Ouro, a perspectiva da recuperação pelo valoroso Iphan da Estação Ferroviária e o mais ambicioso de todos os projetos culturais da Secretaria de Educação, Cultura e Esporte (Seduce), o Circuito Cultural da Praça Cívica.

O Circuito Cultural visa promover a requalificação, adequação e restauro de sete edifícios públicos situados na Praça Cívica: a sede da antiga Chefatura de Polícia, a sede da PGE, o Palácio das Esmeraldas, o Centro Cultural Marieta Telles Machado, o antigo TCE, o Museu Zoroastro Artiaga e a antiga sede da Delegacia Fiscal do Estado. Darão lugar, entre outros, ao Museu Casa Goyaz que contará a História de Goiás e de Goiânia através da arquitetura e o Museu do Alimento. Um marco cultural e turístico visando à preservação da memória, da história e da nossa cultura.

Goiânia viva, country, countrypira, sertaneja, carnavalesca, nenhum rótulo é maior que sua dimensão histórica, permeada de heterogêneas faces de um mesmo rosto. Qualquer rótulo será mera expressão de um mero pedaço de seu todo, de suas mesclagens culturais, de suas simbioses geradoras de talentos de sua gente. Goiânia tem útero macunaímico, formação geral entre o urbano e o rural. Goiânia já não cabe em si, nasceu para ser plural. GYN é apenas sua forma embriagada de preguiça interiorana. Goiânia veio para inserir definitivamente Goiás no cenário nacional, no projeto nacionalista da Era Vargas, a região na nação. Goiânia veio também para Pedro ter planos de voo político, engenharia medicinal, quando o Interventor sentiu seu saber médico insuficiente para sanear o Estado no começo dos anos 30. Goiânia veio para empurrar Goiás no rumo da modernidade, por isso é também filha dos anos 20, do desenvolvimento goiano da Primeira República, de trem-de-ferro e trem-bão demais da conta.

A convivência do moderno com o atraso marcam a história de Goiás e de sua nova capital, Goiânia, nos agitados anos 30. Goiás, Estado navegante, cortado pelo rio da modernidade continuou vislumbrando, ao longo de suas margens, as antigas imagens de decadência e atraso. Hoje, Goiânia tornou-se um interior cosmopolita, uma capital de mundos interligados por internets de histórias, sem perder as tradições culturais que a geraram.

Por mais uma dessas ironias da História, porém, a antiga capital, a Vila Boa de Goyaz, hoje a Cidade de Goiás, ao conquistar o título de Patrimônio da Humanidade, pode vir a ser, nos cenários nacional e internacional, um local mais conhecido e importante do que sua algoz. Coisas da História que demonstram a importância da preservação cultural e arquitetônica de um espaço urbano.

NASR FAYAD CHAUL,
professor titular aposentado da Faculdade de História da UFG,
doutor em História Social pela USP, compositor e
membro da Academia Goiana de Letras (AGL)

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