O arquiteto como ator da Norma: de coadjuvante a protagonista

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Muito tem se falado nos últimos anos do papel relevante que o arquiteto passa a ter no mercado imobiliário com o advento da NBR 15.575. Finalmente o projeto de arquitetura assume sua função mais plena, a de promover não só um bom desempenho em sua forma e função, mas também na durabilidade e manutenibilidade. Mas toda essa nova abordagem traz consigo mais responsabilidades, e é aí que os papéis se invertem.

O projeto de arquitetura há tempos vinha sendo tratado como um documento auxiliar, superficial, uma espécie de pedágio a ser pago para que a construtora obtivesse o alvará de construção. Não obstante, muitas vezes encontrávamos material de vendas na obra para orientar os operários. Com isso, os arquitetos eram contratados para desenvolver o chamado “projeto legal” ao menor custo possível e, consequentemente, com o mínimo de informações. O resultado não poderia ser pior: edifícios ruins, clientes insatisfeitos e projetistas mal treinados.

Ao mesmo tempo em que o projeto não recebia o seu devido valor, muitos arquitetos também não se mostravam merecedores de um papel mais relevante nesse roteiro. Aceitavam passivamente que as construtoras economizassem em projeto para gastar mais injustificadamente na obra, tanto na execução quanto na manutenção. Em qualquer país desenvolvido o arquiteto tem papel oposto: seus desenhos e especificações são o fiel da balança para que uma obra seja econômica e durável. Por aqui, se ouve falar o tempo todo em despesas de pós obra quando na verdade muitas delas poderiam ser evitadas com bons detalhes construtivos e especificações mais coerentes. Mas por que esse profissional deixou que isso acontecesse de forma tão passiva? Me arrisco a dizer com toda certeza. Por pura covardia.

O profissional de arquitetura muitas vezes se acomoda na ideia de que é um artista, de que sua função é criar o belo, a imagem que marca. Numa de minhas palestras (“Arquiteto não é artista”), explico claramente meu ponto de vista sobre o assunto. O de que o artista é um gênio que pode trabalhar de forma individual sem absolutamente nenhuma responsabilidade com alguém ou algo. Apesar disso, um projeto arquitetônico pode até se tornar uma obra de arte, mas desde que atenda aos requisitos dos usuários, cumpra bem sua função estética, seja viável economicamente e mantenha suas características físicas ao longo do tempo. E é quando se fala em responsabilidade que distinguimos o artista do ator.

Os arquitetos artistas são aqueles que se eximem de estudar. Nem mesmo as diretrizes básicas de uso e ocupação do solo prendem a atenção desses profissionais. Para facilitar sua vida, encaminham projetos sem nenhum critério técnico aos órgãos competentes para que estes apontem os erros e como eles os devem corrigir. É como o professor que corrige a tarefa em sala de aula. A Prefeitura de Goiânia, inclusive, que vinha sofrendo para corrigir esses projetos e acabava acumulando pilhas de processos, resolveu virar o jogo. Transferiu para o profissional toda a responsabilidade sobre seus desenhos, e agora o alvará de construção aqui depende apenas do pagamento da taxa, e não mais da aprovação do projeto.

Já o arquiteto ator é aquele que, além de estudar os parâmetros urbanísticos do local onde atua, se debruça sobre as normas técnicas a fim de tornar seu trabalho mais eficaz, mais produtivo, mais responsável. Somente na ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) são centenas de normas que regem a atuação desse profissional. Além disso ainda recai sobre ele as leis orgânicas de cada município, normas específicas do Corpo de Bombeiros, Concessionárias, etc. Mesmo em assuntos em que ele não domina amplamente, é seu papel solicitar o apoio de outros profissionais como os arquitetos especialistas em desempenho acústico, térmico ou lumínico. Enfim, o arquiteto responsável é aquele que assume seus direitos e deveres no cenário da construção civil.

Lembre-se: em Hollywood, para que um filme seja fenômeno de bilheteria, o diretor deve contar com um elenco de atores competentes, compromissados, com experiência nos palcos e domínio do roteiro. Com o seu produto não é diferente. O sucesso exige esse esforço inicial para garantir uma obra eficiente, econômica e durável sob pena de se tornar uma fita VHS, repleta de atores coadjuvantes, encostada na prateleira.

PAULO RENATO ALVES,
diretor executivo da Norden Arquitetura

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