Ética e Valores: como se constroi um ser humano?

Pin It

lucia helena galvaoVivemos no tempo do “know how”: saber como se faz mil coisas, em geral, úteis para uma sobrevivência mais prazerosa e  confortável. Mas não sabemos como construir seres humanos, nem temos consciência da necessidade disso; achamos que basta recebê-los no mundo, alimentá-los, abrigá-los, mimá-los e dar a eles treinamento em algumas perícias técnicas que lhe permitirão aceitação e talvez até sucesso dentro do meio social.

E lá vem, saindo da linha de produção, mais um ser humano “formado”: sabe manejar alguma máquina ou ferramenta talvez até muito bem, mas não sabe manejar suas emoções, seus pensamentos, não sabe conviver, lidar com perdas, confrontar o novo, encontrar o caminho para a própria realização e somar para que os demais também o encontrem. Quando este “ser racional” começa a usar de sua razão apenas para potencializar seus instintos e egoísmo, lá vêm todos os problemas do mundo... e então, o punimos, para que se enquadre. E assim se criam as normas, legislações e punições aos infratores, que, uma vez pagas, adquire-se crédito para novas dívidas; o que mais se poderia fazer além disso?

E lá vêm também os debates, as mesas redondas de especialistas, as campanhas educativas, as reformas legais. Em geral, a sociedade reage, tentando sair deste “círculo” com mais proibições... E mais desejos de infringi-las. Mais uma vez, o que mais se poderia fazer além disso?

Permitam-me apelar para uma antiga história, pois elas costumam ser de uma utilidade pedagógica inegável: Platão, antigo filósofo grego, entre muitos outros belos mitos, falava do Mito de Giges. Como homem nobre e íntegro, um dia achou nos campos um anel que o tornava invisível. Imediatamente, ao colocar o anel, toda a virtude de Giges se vai por água abaixo: torna-se ladrão, homicida e vicioso.

Após certificar-se de que poucos resistiriam ao anel de Giges, Platão conclui: se, ao encontrar o anel e usá-lo, Giges permanecesse virtuoso, as pessoas, ao saberem disso, o elogiariam por medo de serem vítimas de seus possíveis desvios, mas, reservadamente, diriam a si mesmas: “que estúpido, o Giges! Quem me dera este anel aparecesse para mim...”. Ou seja, a ética seria uma espécie de “pacto social” para proteger mutuamente as pessoas da audácia infratora dos outros, mas é um “mal menor”; não é amada, é simplesmente tolerada. Sem amor, os homens são “adestrados” para segui-la através de estímulos ou punições.

A vida inteira, este mesmo hábito: “coma a salada, senão não tem sobremesa”; “comporte-se, senão Papai Noel não traz presente”; “seja ético, senão é multado, recriminado, preso...”. Quem ama a salada, o comportamento, a ética? Muito poucos. Quem obedece aos seus comandos, quando a última porta se fecha atrás de si? Menos gente ainda. Trata-se de uma máscara social de muito pouca cobertura.

Mas é possível amar a ética e praticá-la porque nos realizamos ao fazê-lo? Já houve quem se sentisse feliz e pleno por deixar os ambientes por onde passa mais belos do que os encontrou, por deixar as pessoas com quem interage, na vida, mais realizadas e inclinadas ao bem porque convivem com ele, e por deixar o mundo um pouquinho melhor do que o encontrou?

Em Nova Acrópole, costumamos ensinar Filosofia para crianças, adolescentes e adultos. Há uma prática, na filosofia para crianças, bem interessante: pede-se que um dos meninos sirva suco a todos, sabendo que a quantidade de suco, na jarra, faltará para um. A ideia é mostrar para eles que, se tiver que faltar para alguém, é uma honra que seja para ele, e que fraternidade e honra são mais gostosos do que suco. Sim, eles têm sabor, são “gostosos”: atendem a um outro tipo de sede, dentro de nós, que, se não atendermos, amarga-se a vida e resseca-se o coração.

Somos felizes ao promover o bem, ao pensar menos apenas em nós mesmos. À nossa volta, funciona uma natureza milimetricamente coordenada em suas leis, e nos admira sua harmonia e beleza; os desvios são raros, são desastres... Há leis naturais, que harmonizam a natureza humana, e a ética é uma delas. Segui-la faz com que nossa vida se assemelhe a um por de sol; desafiá-la... Desastres.

Pedagogia vem de paidós + agogos: conduzir crianças. Somos crianças quanto à depuração do nosso gosto para nos alinharmos com o humano que vive em nós. Para olharmos para trás e nos determos a admirar que belo foi o nosso rastro pela vida, no dia de hoje, e dormirmos o sono dos justos, em paz com céus e terra, felizes e plenos pelo que somos.

Diz-se que nada (talvez nem a morte!) pode arrebatar de nós essa paz e plenitude por coincidirmos conosco mesmos e encontrarmos o nosso lugar na vida. Quando o fazemos por respeito a algo que reside em nós e que se alimenta de nobreza, quais leis temporais precisariam nos coagir ou adestrar?

Conta-se que disseram, um dia, ao imperador-filósofo Marco Aurélio que ele deveria temer ser castigado após a morte e, por isso, era tão ético; mas e se não existisse nada depois da morte? Ao que ele respondeu: “se nada houver, aí mesmo é que devo ser ético, pois esta é a única oportunidade que tenho!”. Saborear os valores humanos e perceber que nada há nos preencha e realize como eles é aprender a extrair o melhor da vida humana, sem
coações ou manipulações; quem quer experimentar?

LUCIA HELENA GALVÃO,
vice-diretora de Nova Acrópole Brasil
www.acropole.org.br

Pin It

Cadastre seu e-mail

Saiba das novidades em primeira mão.
Cadastre-se em nosso portal.